sexta-feira, 2 de maio de 2008

O novo fôlego do lince em Portugal

02.05.2008, Ana Fernandes

É o felino mais ameaçado do mundo e ninguém garante que ainda se passeie por Portugal. Daqui a uns anos talvez o possamos voltar a ver em oito áreas classificadas do país



Lá fama o bicho tem. Serão poucos os que nunca ouviram falar do lince. Os mais velhos talvez ainda se lembrem da campanha Salvem o lince e a serra da Malcata, uma das primeiras que houve na área do ambiente no país, há 30 anos. Os mais novos, mais que não seja, ouviram falar dele por causa da barragem de Odelouca. É o felino mais ameaçado do mundo e ninguém mete a mão no fogo que ainda se passeie por Portugal. Mas esta já foi a sua casa e hoje o Governo lança um plano de acção para voltar a acolhê-lo.
Foi precisamente por causa da barragem de Odelouca, no Algarve, que destrói parte do habitat natural desta espécie, que as acções de conservação do lince ganharam um novo impulso. Por causa das medidas de compensação exigidas por Bruxelas, será construído, em Silves, o Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico. Re-
ceberá bichos vindos dos centros espanhóis, que já fazem reprodução em cativeiro há vários anos.
Mas como o objectivo não são os parques zoológicos mas sim a natureza, a ideia é voltar a repovoar o território com estes esquivos felinos. Para isso, havia que montar um plano de acção, agora concluído, e que será hoje apresentado pelo secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa, na Malcata. O despacho que o concretiza conta também com a assinatura do secretário de Estado do Desenvolvimento Rural e Florestas.
Isto porque muitas das acções previstas terão de ser postas em prática num esforço conjunto entre o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, a Direcção-Geral dos Recursos Florestais, a Direcção--Geral da Veterinária e as unidades científicas.
Ainda não há uma estimativa do valor total do plano, adiantou Humberto Rosa. Sabe-se que o centro de reprodução e as medidas de recuperação do habitat em Odelouca custarão entre quatro a cinco milhões de euros.
"A primeira tarefa da comissão de acompanhamento [do plano] se-
rá passar as medidas a projectos", adiantou o responsável. Só nessa altura haverá um cálculo final dos custos. Para pôr as acções em prática, haverá apoios comunitários, tanto da Agricultura como do Ambiente e do Desenvolvimento Regional, e também do sector privado.
O papel dos cidadãos
Pouco será conseguido sem o envolvimento dos particulares, já que as acções cruciais passarão pela recuperação do habitat natural do lince - o matagal mediterrânico - e o seu prato predilecto, o coelho-bravo. Co-
mo a maioria do país é privado, a adesão dos proprietários às medidas propostas é crucial.
Mas, "enquanto instrumento potencial de execução deste plano, o
arrendamento de terrenos ou a aquisição ou expropriação por parte do Estado serão considerados sempre que sejam as únicas opções viáveis para o desenvolvimento de acções de conservação de relevância primordial", adianta o plano de acção, a que o PÚBLICO teve acesso.
As medidas previstas terão como áreas prioritárias de intervenção as áreas classificadas da Malcata, Nisa--Laje da Prata, São Mamede, Moura--Barrancos, Guadiana, Monchique, Caldeirão e Barrocal algarvio.
Há 30 anos, o apelo - e os autocolantes - da Liga para a Protecção da Natureza tiveram grande sucesso. Mas, desde aí, o que na altura se jurava existir em Portugal possivelmente desapareceu. O último sinal da sua presença foi dado por excrementos encontrados em 2001 na serra da Adiça. O Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade con-
sidera-o pré-extinto no país.
Com a ajuda de Espanha, Portugal joga agora o tudo ou nada. Para que a Ibéria não perca para sempre um dos seus mais antigos habitantes.

2 comentários:

josnumar disse...

O Plano de Aclção para a reintrodução do lince em Portugal foi de facto anunciado pelo Secretário de Estado há dias em Penamacor, tendo passado também pelo Sabugal. Pouca notícia foi divulgada a esse respeito. Mas também se lermos o plano concluímos que decisões concretas acerca do Centro de Reintrodução nada foi decidido. As outras acções do plano terminam em 2012. E depois?

Revolta da beira disse...

Onde é que leu o plano?
E depois continuam a gastar rios de dinheiro e a não conseguirem fazer nada.
Quanto a noticias saiu em vários jornais locais e nacionais.